quinta-feira, outubro 12, 2006




Desde há uns dias que não tenho publicado e de fazer as visitas de que tanto gosto, o motivo é que estou a preparar o Natal
ao longo do tempo tenho guardado muitos gifs de natal, e resolvi fazer páginas deles para poder partilhá-los convosco e também poderem usa-los nos vossos blogs.
Como devem calcular dá algum trabalho fazer estas páginas, podem ver duas que já estão publicadas debaixo do selo da Arodla, e uma no selinhos dos amigos, onde diz as minhas jóias.



Quando fiquei grávida, aparentava muito menos idade do que tinha porque era pequena e magra, tinha a pele muito clara o que me dava um ar mais nova. Quando saia do emprego ás 13 horas para ir almoçar, cruzava-me muitas vezes com um homem que admirava muito como poeta, a minha barriga começou a crescer e olhar dele ficava sempre parado no meu ventre, como se estivesse vendo ao Raio x a criança que eu gerava, algumas vezes no seu andar vagaroso, seus lábios faziam um leve sorriso, era nessas alturas que tinha uma vontade enorme de lhe dizer que o admirava como escritor e como homem, mas acabava por baixar os olhos, com vergonha. Eu trabalhava em Alvalade, e junto à Av. Rio de Janeiro era onde avistava o Poeta, ao longe, o meu coração até batia mais rápido por ser olhada pelos olhos do poeta, fiquei sempre pensando se teria sido musa inspiradora?!

AH! COMO TE INVEJO
Ah! Como te invejo,
pássaro que cantas
o silêncio das plantas
-- alheio à tempestade.
Vives sem chão
ao sol a cantar
a grande ilusão
da liberdade...
(...com algemas de ar.)
(José Gomes Ferreira, Poesia III)


Mas na prosa que admiro mais ainda José Gomes Ferreira

"Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
- 0 Fafe telefonou de Cascais, ... Lisboa está cercada por tropas…
Refilo, rabugento:
- Hã? (...)
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
- Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
- Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
- Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço:
- Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo). São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem! (...)
A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório».
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena ... Terra da fraternidade... 0 povo é quem mais ordena...
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas.
De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. 0 Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. 0 Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. 0 Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.
A Maria Keil telefonou. 0 Chico está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! (...)
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos... alguns torturados durante dias e noites sem fim.... não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca... Juntámos as vozes na mesma alegria. (...)
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução.
José Gomes Ferreira
Poeta Militante III - Viagem do Século Vinte em mim, Lisboa, Moraes Editores, 1983


Parabéns pelas 10.000 visitas de A Papoila