terça-feira, maio 22, 2007

Tempos de criança


Recordo-me do meu pai (que, dizia minha madrasta, nasceu para ser morgado), alugar todos os anos um carro preto, acho que não havia outra cor na época, eram todos pretos e tinham um grande nariz, os carros claro, não o meu pai, e, lá íamos até ao Ribatejo, muito longe na época, onde ele me depositava com a minha mãe que detestava a ideia, na casa da minha avó, e lá ficávamos todo o Verão enquanto o meu “doce” Paizinho, que desgraçado, ficava a trabalhar claro de dia, e de noite com as manicuras do barbeiro que frequentava, que trabalheira.
Por isso era uma maravilha as férias no campo para mim e minha mãe fazia-nos bem aqueles ares, dizia ele à minha avó que torcia o nariz.

A minha avó tinha três costureiras para fazerem para nós as netas, cuecas de popelina (era o que se usava), que éramos várias ali depositadas, durante o Verão, nessa altura eu teria 4 anos pois as ditas cuecas eram tão grandes que com 10 anos ainda me serviam, também eram feitos bibes para todas nós, os meus acho que eram sempre os que tinham os bolsos mais feios, um bolso grande à frente os das minhas primas eram diferentes, não sei se seria por eu ser a mais velha e talvez até a intenção fosse boa. O Verão para a minha mãe devia ser uma seca ter que aturar a sogra chata como era, os colchões de lã eram abertos, a lã era lavada e seca no pátio caiado de branco, onde todas nós crianças, depois da sesta mais a várias mulheres, passávamos o resto das tardes abrir a lã. A sesta era outro suplício em casa da minha avó mas como as minhas primas eram mais pequenas eu tinha que me deitar também, uma das vezes eu levei sementes de melão secas para comer enquanto estivesse na hora de sesta mas, a minha prima a seguir a mim tirou-mas, quando dei por isso a menina tinha-as com ela claro, eu que nem era de brigas chegou-me a mostarda ao nariz e empurrei-a da cama a baixo (as camas antigas eram altas, para nos deitarmos tínhamos que ter um banco a fazer de degrau), e tal foi o meu azar que a larápia bateu com a cabeça no penico de loiça, instrumento sempre usual debaixo das camas na época, pois a menina ficou com um galo e eu com o rabiosque marcado com as mãos da minha avó. Durante anos nunca entendi a minha avó paterna, hoje entendo-a um pouco melhor. Quando era a hora do banho, as minhas primas tomavam-no com sabonete cheiroso para bebé, o meu eu era com sabonete de alcatrão preto que odiava pelo seu mau cheiro, mas como era uso e costume na época ninguém na altura achou útil explicar-me que era derivado a eu ter urticária na pele que meu sabão era diferente e talvez até mais caro pois era medicinal.
Mas as descriminações não ficavam por aí, a minha prima era a menina bonita da minha avó, tinha caracoizinhos louros, o meu cabelo era super liso e castanho claro, ora na época o bonito era ter caracóis como os anjinhos, talvez por isso meu pai que era ateu nunca me deixou desfilar vestida de anjo nas procissões, a minha avó também nunca forçou pois talvez estraga-se a visão bonita dos anjos na procissão.
Lembro-me ainda nessas férias ter havido algo anormal, era noite e já estávamos todas deitadas (nós primas dormíamos no mesmo quarto), quando ouvimos os adultos andarem de um lado para o outro numa grande aflição, o que se passou só mais tarde viemos a saber, alguém tinha ido a certas casas donde os pais de meninas como nós foram levados ninguém soube para onde, outros não conseguiram ir nessa leva, mas ao que constou devem ter sido presos pois nunca mais os vimos, sei que nos dias que se seguiram e nos anos seguintes essas meninas ficaram sem pais, ninguém sabia para onde tinham ido, um dia, algumas dessas nossas amiguinhas ficaram também sem a mãe ficando ao cuidado das suas avozinhas.

Deixavam-nas brincar connosco para não sentirem tanto a tristeza, de não terem a mãe nem o pai, já adulta eu soube que os ditos tinham passado à clandestinidade e viviam bem longe.